Mudei de cadeira

Esta semana termino o Advanced Board Leaders no ISE. Terça e quarta, Módulo 5. O último.

Entrei no início do ano achando que ia aprender a sentar em conselho. Saio sabendo que já estava sentado há muito tempo, só em cadeira errada.

Essa newsletter chama Cadeira do Dono a partir de hoje. Antes era No Easy Answers. Mesma pessoa escrevendo, mesma cabeça. Cadeira diferente.

Quem me acompanha há tempo deve notar o deslocamento. Nos últimos três anos escrevi aqui como CRO as a Service, operador de vendas que entrava para construir máquina de receita em empresa dos outros. Agora escrevo de outro lugar.

Não é promoção. É mudança de ponto de vista.

A conta que o ISE me obrigou a fechar foi essa: operador olha para fora da empresa (mercado, concorrência, próximo trimestre), dono olha para dentro (continuidade, concentração, dever fiduciário, o filho que vai receber a mesa). Conselheiro faz a ponte, mas a cadeira dele é a do dono, não a do CEO. Essa diferença, que parecia filosófica em janeiro, hoje me parece estrutural.

Em 2026 começou meu primeiro papel formal como conselheiro, no Vale do Pinhão, mandato 2026-2027. Formal, não inédito. Faço esse trabalho há mais de dez anos de forma informal, como advisor de empreendedores incríveis que me chamaram para a mesa deles em momentos de decisão difícil, sem contrato, sem assento, sem cerimônia. O que mudou com o Vale foi o enquadramento. O que já era prática virou papel reconhecido, com responsabilidade formal associada.

Antes dessa cadeira, duas décadas como operador em SaaS/B2B. Três exits. Mesa de negociação com fundo de investimento. Compra e venda de empresa. Operação de M&A pelo lado de dentro. E dezenas de decisões difíceis sobre quem contratar, quem promover e, principalmente, quem desligar antes que custasse mais caro ao time.

Essas cicatrizes, somadas aos dez anos de advisor informal, não me credenciam para ensinar ninguém não somente a construir e expandir uma empresa. Me credenciam para fazer a pergunta certa quando outro empreendedor está prestes a tomar decisão que já me custou caro ou que já vi custar caro a quem sentou comigo antes.

Essa é a tese do novo ciclo editorial, resumida em uma linha:
“dono precisa de conselheiro que já sentou do outro lado da mesa, não de executivo que leu sobre a mesa.”

Por que o reposicionamento agora

Porque o conteúdo CRO estava confortável e eu parei de aprender escrevendo.

Nos últimos 18 meses recebi mais pedido de reunião de dono querendo discutir sucessão, estrutura societária, rodadas de investimento, saída de sócio, formação de conselho consultivo e concentração de cliente do que de VP de Vendas pedindo discussão sobre cadência de SDR. A mesa mudou. O conteúdo demorou para acompanhar.

Também mudou a lente com que leio empresa. Antes olhava para dentro de uma empresa e via máquina de vendas quebrada, olhava o curto prazo do mundo das startups.

Hoje olho a mesma empresa e vejo que a máquina de vendas é sintoma. A doença é governança frouxa, decisão não registrada, fundador que delegou operação sem delegar risco. A conta que não fecha é a dos tomadores de decisão, não a dos executores.

Essa nova linha editorial também é para os intra-empreendedores. Executivos que opera dentro de empresa dos outros, mas decide como se fossem donos. Head de unidade, country manager, VP de P&L fechado.

O que muda no conteúdo

Pilar 1 — Governança do Dono. Quando o dono para de operar e começa a governar. Sucessão. Alocação de capital. Captação de investimentos, Formação de conselho consultivo e deliberativo.

O momento em que delegar vira risco, não alívio. A transição para 2ª geração ou a decisão de venda da operação sem quebrar o que já funciona.

Pilar 2 — Vendas em Linguagem de Risco. Esse é o pilar que mais vai estranhar quem me acompanha pelo lado comercial. Vou continuar escrevendo sobre pipeline, forecast, carteira, churn. Mas sob outra lente: como responsabilidade fiduciária do CRO perante o board, como passivo oculto, como concentração que vira risco material. Comercial deixa de ser departamento para virar linha de risco a ser governada.

Pilar 3 — Bastidor Empreendedor. Cicatriz, caixa apertado, decisão difícil em mesa de cozinha. O que três exits ensinaram que livro não ensina. História real, sem romantização. Esse pilar continua sendo o lugar onde a palavra Piloto aparece, porque é onde operador fala com operador. Nos outros dois, prefiro Dono ou você.

A promessa editorial da Cadeira do Dono

Toda segunda-feira, 14h, um texto denso por aqui e durante a semana, posts no feed, Instagram, reels e agora X desdobram o tema sob ângulos diferentes.

A promessa é simples: trazer para quem decide (dono, fundador, sócio, 2ª geração, intra-empreendedor com P&L) a conversa que eu tenho em sala fechada com cliente, com colega de ISE, com conselheiro parceiro. Sem o verniz corporativo que faz todo mundo concordar com tudo.

Vou errar. Vou dizer coisa que a maioria vai discordar. Prefiro assim. Discussão que vale aqui é a que muda decisão de dono na mesa dele, não a que faz 500 likes de quem já concorda comigo.

Para quem acompanhava "No Easy Answers"

Vocês não precisam fazer nada. A assinatura segue. O domínio da newsletter segue. Vai aparecer a mudança de nome na próxima edição e os temas vão deslocar gradualmente para a mesa do dono.

Alguns de vocês assinaram pelo lado CRO as a Service, por conta de pipeline e vendas B2B. Peço paciência nas primeiras semanas. O que vocês vão receber não é menos técnico. É mais integrado. A operação comercial continua ali, mas lida como parte de uma mesa maior, não como fim em si.

Outros podem decidir que não é mais o conteúdo para eles. Está certo também. É melhor um leitor a menos agora do que um leitor cansado daqui a seis meses.

P.S. — onde fico e onde deixo de entrar

Mantenho minhas posições atuais de CRO as a Service em apenas duas operações pois o skin in the game é algo importante!

A partir desta semana, não aceito mais pedidos novos de CRO as a Service. Nas últimas semanas recusei três, não por indisponibilidade, por escolha de cadeira.

Fico disponível para o que faz sentido no novo ciclo: vagas em conselho consultivo, conselho deliberativo e comitê estratégico. Preferência por mesa de dono/família, 2ª geração em transição, empresa de capital fechado com faturamento entre R$ 20M e R$ 500M, e para comitês de risco e estratégia onde a conversa é sobre receita como ativo, não como meta.

A cadeira do dono não se delega. Ela se perpétua, quando o conselho é bem feito.

Nos vemos por aqui semanalmente.